Deputado Valdir Barranco expõe números e questiona “maquiagem” do governo estadual nos resultados da educação de Mato Grosso

Parlamentar aponta que avanço no Ideb foi impulsionado pelo aumento da aprovação, enquanto indicadores de aprendizagem permanecem praticamente estagnados

Deputado Valdir Barranco expõe números e questiona “maquiagem” do governo estadual nos resultados da educação de Mato Grosso

O deputado estadual Valdir Barranco (PT) subiu à tribuna da Assembleia Legislativa de Mato Grosso nesta quarta-feira (2) para confrontar o discurso do Governo do Estado sobre os resultados da educação pública. Com números em mãos, o parlamentar questionou o que classificou como uma tentativa de apresentar como grande avanço aquilo que, segundo os próprios indicadores, não se traduziu em melhora significativa na aprendizagem dos estudantes.

Barranco chamou atenção para os dois componentes que formam o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb): aprendizagem e rendimento escolar. Segundo os dados apresentados pelo deputado, a nota padronizada de aprendizagem da rede estadual era de 4,38 em 2019, primeiro ano da gestão Mauro Mendes, e ficou em 4,35 na edição mais recente. Ou seja, praticamente não houve avanço no principal indicador relacionado ao que o estudante efetivamente aprende.

Enquanto isso, a taxa de aprovação no ensino médio apresentou uma disparada. Em 2019, era de 70,1%. Subiu para 81% em 2021, chegou a 96,4% em 2023 e alcançou impressionantes 99,2% em 2025. Para Barranco, os números deixam evidente que o crescimento do Ideb foi fortemente influenciado pelo aumento da aprovação, e não por uma evolução correspondente na aprendizagem.

“O grande salto não aconteceu na aprendizagem, aconteceu na aprovação. A aprovação chegou a 99,2%, enquanto a nota de aprendizagem praticamente não saiu do lugar. Então eu pergunto: onde está o avanço que o governo tanto anuncia? Não adianta comemorar índice, fazer propaganda e apresentar ranking se nossos estudantes não estão aprendendo mais. Aprovar é importante, mas aprovar sem garantir aprendizagem não pode ser tratado como sinônimo de qualidade na educação. O governo precisa mostrar os números completos, precisa ter coragem de colocar na mesa as notas de matemática, de língua portuguesa, os índices de aprendizagem e a taxa de aprovação. É isso que vai mostrar a realidade da nossa educação pública.”, afirmou o deputado.

O Ideb de 2025 foi divulgado pelo Ministério da Educação e pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em agosto. Na rede pública estadual de Mato Grosso, o ensino médio passou de 4,2 para 4,3. Quando consideradas todas as redes de ensino, o índice estadual permaneceu em 4,4, exatamente o mesmo resultado de 2023 e abaixo da média nacional, de 4,5.

Nos anos iniciais do ensino fundamental, Mato Grosso avançou de 6,0 para 6,3. Nos anos finais, passou de 4,9 para 5,1. Para Barranco, entretanto, esses resultados não autorizam o governo a vender à população a ideia de que a educação estadual vive uma transformação histórica, especialmente quando os indicadores de aprendizagem do ensino médio permanecem praticamente parados.

Aprendizagem não acompanha discurso oficial

Os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) também foram utilizados pelo deputado para reforçar sua crítica. Entre 2023 e 2025, a média dos estudantes do ensino médio em língua portuguesa passou de 271,56 para 271,23 pontos. Em matemática, houve uma pequena variação, de 267,77 para 268,03.

Na comparação utilizada por Barranco, tendo 2019 como referência, o cenário é ainda mais preocupante: a pontuação em matemática teria caído de 263,72 para 261 pontos, enquanto língua portuguesa avançou apenas um ponto, de 265 para 266.

Para o deputado, os números precisam ser apresentados de forma completa, sem selecionar apenas aqueles que favorecem a narrativa oficial. “Não adianta comemorar aprovação de 99% se não sabemos quanto desses alunos realmente estão aprendendo”, é, em síntese, a crítica central apresentada pelo parlamentar.

Barranco defendeu que os estudantes sejam aprovados, mas ressaltou que aprovação não pode significar simplesmente passagem de ano. Para ele, o direito de avançar na escola precisa estar acompanhado do direito de aprender.

Divergência sobre ranking nacional

O parlamentar também contestou as diferentes versões apresentadas pelo governo e por aliados sobre a posição de Mato Grosso no ranking nacional do Ideb.

Em entrevista ao programa Opinião, da TV Pantanal, em 24 de agosto, o governador Otaviano Pivetta (Republicanos) afirmou que Mato Grosso teria saído da 22ª para a 6ª posição. Dias antes, ao lançar sua candidatura a deputado estadual, o ex-secretário de Educação Alan Porto (Republicanos) havia atribuído à própria gestão da Seduc a passagem do 22º para o 8º lugar.

Barranco sustenta, porém, que, considerando as redes estaduais de ensino médio, Mato Grosso aparece atualmente na 11ª posição. A divergência, segundo ele, reforça a necessidade de deixar claro qual indicador, recorte e ranking estão sendo utilizados quando o governo anuncia os resultados.

Meio bilhão em apostilas e plataformas

Barranco voltou ainda a questionar os contratos da Secretaria de Estado de Educação com sistemas privados de ensino, apostilas e plataformas digitais. Segundo estimativa apresentada pelo deputado, os gastos chegam a cerca de meio bilhão de reais.

O parlamentar questionou o custo dessas ferramentas diante dos resultados apresentados pelos próprios indicadores de aprendizagem. Na avaliação dele, não basta investir grandes quantias em soluções privadas se o estudante continua sem apresentar evolução significativa em conhecimentos básicos.

Barranco também criticou mudanças na formação continuada dos profissionais e a redução do espaço dos Centros de Formação e Atualização dos Profissionais da Educação Básica. “Professor não é operador de apostila. Professor não é apertador de botão de plataforma. Professor é educador”, afirmou.

A crítica, fez questão de ressaltar o deputado, não é dirigida aos professores e demais trabalhadores da educação. Ao contrário, Barranco afirmou que os profissionais precisam ser valorizados, ter formação continuada de qualidade e autonomia para exercer seu papel pedagógico.

Ao encerrar o pronunciamento, Barranco elevou o tom das críticas e cobrou que o governo pare de apresentar a educação apenas pelo número final do Ideb. O parlamentar defendeu a divulgação conjunta das notas de matemática e língua portuguesa, dos índices de aprendizagem e das taxas de aprovação.

Em seguida, dirigiu críticas diretamente a Alan Porto, Mauro Mendes e Otaviano Pivetta. “Alan, Mauro, Piveta, parem de mentir para o povo mato-grossense. Porque diz o velho ditado que a mentira tem perna de cobra e essa mentira de vocês já está desmascarada. Os números estão aí, a verdade apareceu e contra os fatos não existe propaganda que resista. Respeitem a educação, respeitem o dinheiro público, respeitem os profissionais da educação, os alunos de toda a comunidade escolar de Mato Grosso”, finalizou.

Alan Porto comandou a Seduc entre 2020 e 2026 e teve sua candidatura a deputado estadual confirmada pelo Republicanos em agosto. Ele integra a mesma composição política que tem Otaviano Pivetta na disputa pelo Governo de Mato Grosso, Fábio Garcia (União Brasil) como candidato a vice e Mauro Mendes (União Brasil) na disputa pelo Senado.

O Governo do Estado, por sua vez, defende os resultados alcançados. Em entrevista realizada em agosto, Pivetta afirmou que o Ideb é calculado pelo Ministério da Educação com critérios confiáveis e sustentou que a evolução do indicador comprova o acerto das políticas adotadas. O governador também declarou que, em um eventual novo mandato, pretende fazer de Mato Grosso referência nacional na educação pública.

Para Barranco, porém, o debate não pode ser travado apenas em torno de propaganda, rankings ou números isolados. A avaliação, segundo o deputado, precisa começar pela pergunta mais simples e mais importante: o aluno está aprendendo?

Pedro Velasco

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